quinta-feira, 31 de maio de 2012

A criação do menino e os afazeres domésticos - Resquícios do Passado

Antes de mais nada quero dizer que esse post será embasado na minha própria vivência e observação. Ele foi inspirado no post “14 itens para lidar melhor com a divisão das tarefas domésticas - para homens” do Blog “Adeus, Mariana”.

Já escrevi aqui sobre o homem atualmente “Ser Homem - O Homem Hoje”, post no qual falo sobre as transformações que ocorreram na forma do homem existir, sobre a relatividade dessas imposições de gênero e sobre a questão da identidade masculina, mas hoje quero falar de algo mais específico, mas que faz parte de toda essa equação.

Também já escrevi um pouco sobre a questão de gênero, sobre a luta das mulheres por igualdade e contra a repressão, mas agora falarei sobre o machismo na criação. Machismo bastante exposto e que faz parte da realidade de uma parcela significativa das famílias brasileiras.

Como todos sabem, meninos e meninas são criados de formas diferentes e visivelmente com funções específicas. Trata-se de algo enraizado na nossa sociedade e compreende uma gama imensa de aspectos que influenciam toda a formação da personalidade dessas crianças e a maneira como estas se comportarão quando adultas. No post “OS BRINQUEDOS EDUCATIVOS DE CADA GÊNERO”, do blog Escreva Lola Escreva, isso é evidenciado de forma bastante clara.

É comum que a criança, desde cedo, seja pressionada a expressar em suas brincadeiras as funções que a sociedade espera que estas executem quando adultas.
Além do fato da criação se dar de forma diferente, a própria relação que a criança do sexo masculino possui com o ambiente que a cerca é distante da experiência que a criança do sexo feminino terá. No caso das meninas, isso ocorre através de brincadeiras e jogos que, ainda hoje, estimulam um comportamento que representa o que é esperado da atuação da mulher em seu cotidiano, e ocorre também através do contato com os parentes, colegas e com a mídia, principalmente a TV, que reforçam esses padrões.

Enquanto que da menina se espera um modelo de exímia delicadeza, carisma, subserviência e atributos como saber arrumar a casa e cozinhar, do menino espera-se o oposto; ele deve brincar com o seu carrinho e guerrear com seus bonecos.

Em qualquer site de jogos é fácil encontrar uma categoria dedicada às meninas. Nessa seção vemos games como "Arrume a casa rápido", "Cozinhe para o Ken" e "Coloque as coisas no lugar".
Enquanto pai e filho vivem como lordes em suas casas, mãe e filha em geral ficam responsáveis por todas as tarefas domésticas, isso quando não possuem uma diarista que seja incumbida dessas tarefas. Também não quero entrar na questão do trabalho infantil... Claro que crianças devem utilizar o tempo estudando e usufruindo de parte dele para o lazer, mas acredito que é consenso que, a partir de certa idade (principalmente na adolescência), suas responsabilidades aumentam e é esperado que ajudem seus pais com as tarefas da casa, mesmo que seja apenas auxiliando ali ou aqui.

E mesmo quando isso não se faz necessário, ainda assim permanecem na forma de tradição os mesmos jogos, brincadeiras e noções de décadas atrás. Que dirá então da profissional responsável pelas tarefas domésticas (quando existe uma trabalhando para a família) sempre ser uma mulher? Que mensagem isso passa?

As crianças são cercadas por imagens e referências que influenciam na formação de suas identidades.
Na minha experiência eu sempre fui incentivado e até cobrado a ajudar nos afazeres da casa. Arrumar meu quarto, varrer o chão, lavar a louça, lavar o quintal... Mas nada disso nunca foi uma imposição. Percebam, eu era cobrado, mas nunca soou de fato como um dever. Já para a minha irmã, pelo que recordo, era diferente. Era OBRIGAÇÃO ajudar com a casa, lavar roupa e eventualmente fazer almoço e janta. E olha que eu sabia (e ainda sei) fazer tudo isso, inclusive, em minha “humilde” opinião, eu cozinhava até melhor que minha irmã, mas fazer ou não o almoço ou a janta era algo que dependia única e exclusivamente da minha vontade.

E esse padrão, com origens no patriarcalismo, se repete de geração em geração; um padrão que impõe um comportamento bastante conveniente e confortável para os garotos e outro, nem tanto, para as garotas. E não estamos falando de algo que fica restrito ao ambiente doméstico, pelo contrário. Isso pode até começar no berço, mas se estende por toda a vida, seja dentro da casa ou do escritório.

Como diz o post que inspirou este, nós não vivemos mais em meados do século XX e não são todas as mulheres que aceitam essa dupla jornada sem o apoio do companheiro. Se hoje a mulher não está mais reclusa a casa, ao meio doméstico, muitos homens parecem não ter percebido isso e ainda vivem como se elas tivessem por obrigação entregar-lhes tudo nas mãos, desde o prato de comida até a roupa lavada.

Se existe uma solução para essa situação, ela está na conscientização coletiva; e os mecanismos para que isso ocorra estão aí, florescendo, através de movimentos feministas e de atitudes individuais que se comprometem a não perpetuar frutos podres do passado.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino Pt. 2

[Continuação do post da Mari, dona do blog Devaneios e Desvarios]

Como vimos no post anterior, liberdade é uma palavra difícil de definir e ainda mais de viver.

Quem é escravo de vícios, de ações que o prejudicam ou prejudicam a outros, somente vive a ilusão de que é livre.

A linha que separa a liberdade da libertinagem nunca foi tão tênue. Aos que se perguntam por que isso acontece, voltemos ao passado uns instantes: Durante muitas eras, em várias culturas, incluindo a nossa, a manifestação da vontade de ser livre sofria dura repressão. Pais das gerações passadas escolhiam as amizades dos filhos, davam horas para voltar para casa, escolhiam com quem iriam se casar, que profissão deveriam ter...


Os filhos destas gerações repudiaram este modelo "castrador", mas aí se deu o passo em falso: como sempre foram heterônomos, (heteronomia - para outro - alienação; contrário da autonomia ) possuíam boa vontade de mudar, de revolucionar, porém a maioria não conseguiu realizar esta mudança com equilibrio: caiu no extremo oposto da repressão: o lassez-faire (deixar fazer, deixar como está).  Pois como não tiveram condição de viver a autonomia, não poderiam ensiná-la para outros.

Com o discurso de que  não poderíamos ser reprimidos, deram vazão a todas as vontades, todos os desejos. Conheceram a libertinagem que, em vez de proporcionar a liberdade almejada, os acorrentou a prazeres fugazes, a paraísos artficiais.

Como postou sabiamente Bree Emma Sommers, no blog The Renegades.

"Por vezes, a própria comunidade nos põe um travão, impedindo-nos de prosseguir os nossos atos, de perseguir os nossos sonhos. Mas será isso saudável para a Humanidade? Não concordo. Qualquer pessoa que seja privada pela sociedade de exibir orientação sexual, religião, etnia ou até mesmo um mero capricho de adolescente, assim que apanha uma pequena oportunidade, dá azo à libertinagem, no seu contexto mais real, ultrapassando limites perigosos, derrubando barreiras vitais."
Hoje em dia, sentimos os reflexos. Não que nossa geração tenha sido reprimida, mas a falta de referência faz com que muitos jovens - ou nem tanto - queiram se livrar de uma situação desconfortável, real ou criada por eles, e não possuem o discernimento para fazê-lo. Recorrem então a meios inadequados, esquecendo o princípio da "liberdade que termina onde começa a do outro"  e cultivando o princípio da "liberdade a qualquer custo", não se importando em prejudicar outras pessoas no processo.

Continua a blogueira mencionada acima, com muita propriedade:


(....) Mas fazemos parte de uma sociedade hipócrita, vingativa, exorbitante, extravagante, onde todos se procuram exibir, onde todos procuram usufruir de uma maior liberdade, nem que isso implique quebrar a linha ténue que nos separa do próximo, que separa o que devemos ou não fazer. Mentes consumidas pela necessidade de consumo, gastas com a pressão da diferença"

Como se realmente vivêssemos em uma "Matrix", apenas alimentando a ilusão de que somos livres.

Como, então, podemos cultivar a verdadeira liberdade? No próximo post, a conclusão.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cotas Raciais - Argumentos a Favor

Já há no blog um post sobre cotas, no qual exponho alguns dos principais argumentos utilizados contra elas. Agora escrevo a segunda parte, já há muito tempo prometida, colocando os argumentos a favor e tentando refutar os que se posicionam contra.

O que mais se diz é que combater racismo com racismo é ironia. E de fato o é. Mas dizer isso é partir do pressuposto que o uso de cotas segrega e esse não é o caso. Aliás, é o oposto. Essa afirmação é reducionista e desconsidera um cenário que justifica essa política de ações afirmativas. Não se trata de dar privilégios a um grupo por considerá-lo melhor ou então menos capaz, mas sim de uma reparação histórica e social.

Também há quem diga que é apenas um paliativo e que, no fim das contas, não resolve nada. Que é paliativo é verdade, mas isso não implica em inocuidade, no sentido de que não faz diferença. A maior parte dos negros no país não possuem as mesmas oportunidades que os brancos e não será com as cotas que isso irá mudar, mas já é um passo.

No artigo intitulado “O Peso da História: A Escravidão e as Cotas”, o escritor Alex Castro discorre sobre como o peso histórico pode influenciar gerações e de como, no caso dele, o rumo das coisas foram completamente diferentes por não haver uma instituição coercitiva que limitasse as possibilidades dos seus antepassados. É interessante, pois percebemos como a criação de uma base é crucial para o desenvolvimento de uma família e de uma sociedade.

O branco atinge o topo escalando pelas cotas do negro e depois se desculpa pelo racismo cometido, porém recusa-se a ajudá-lo a subir também, alegando que fazer isso seria mais um ato de racismo.
Sim, existem brancos vivendo à margem do desenvolvimento e em situações às vezes tão degradantes e privadas de possibilidades quanto qualquer minoria desfavorecida e pode parecer injusto que alguém, apenas por ter uma tonalidade diferente de pele, possa ter “privilégios”. Mas entra aí uma palavra bastante recorrente nesse blog: contexto. Primeiro que de um lado temos todo um peso histórico e uma sociedade que funciona através de mecanismos preconceituosos que tendem a puxar o negro para baixo ou mantê-lo estagnado, e, segundo, que mesmo entre os mais pobres, os negros ocupam, em geral, uma situação ainda mais degradante. Isso não ocorre por déficit intelectual ou qualquer coisa do gênero. É um reflexo de todo o racismo, discriminação e privação que marcou a história de uma etnia.

Então repito: é um grande reducionismo querer simplesmente taxar de racista uma ação afirmativa que visa reparar, ainda que minimamente, uma situação histórica. Lembrando que tais cotas não entregam de graça vagas em universidades públicas (ou particulares, em programas como o PROUNI) e que é necessário lutar por elas. Quem conquista essas vagas está tão preparado quanto qualquer outro que tenha ingressado por ampla concorrência.

Essa é a minha opinião. Fique à vontade para comentar e expor a sua também. Você também pode seguir a página do blog no Facebook e no Google +. Ou seguir o autor do post no Twitter. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino Pt.1

A Mari, professora e dona do Blog Devaneios e Desvarios, atendendo a um pedido que fiz, escreveu esse Guest Post. Nele ela fala sobre liberdade. Essa é a primeira parte e as demais serão publicadas posteriormente.



"Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome" (Clarice Lispector).

Liberdade de Imprensa, Liberdade de Credo, Liberdade Sexual, Liberdade de Expressão... Mas o que vem a ser essa palavra tão utilizada, que "não há quem explique e não há quem não entenda"? Analisemos uma definição impessoal, fria, do nosso dicionário:
liberdade
nome feminino
1. condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza (queda livre), da sua fantasia (tempo livre), da sua vontade (decisão livre)
2. poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento (liberdade de execução ou de ação)
3. poder de se determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)
4. livre arbítrio
5. poder de agir sem motivo (liberdade de indiferença)
6. personificação das ideias liberais
7. tolerância
8. licença, autorização
9. figurado:  ousadia; atrevimento; familiaridade demasiada

10. figurado:  franqueza
11. [plural] regalias; imunidades;
liberdade de consciência direito de professar as opiniões religiosas e políticas que se julgarem verdadeiras;
liberdade individual garantia que todos os cidadãos têm de não serem impedidos do exercício dos seus direitos, exceto nos casos determinados pela lei;
LITERATURA liberdade poética uso de figuras e alterações morfológicas e sintáticas em poesia
(Do latim libertāte-, )


Bem, crescemos ouvindo que somos seres livres... Analisemos as três primeiras definições por hora.

1. Condição do ser que pode agir livremente, consoantes às leis da natureza, da sua fantasia, da sua vontade.
Ok. Eu posso agir livremente? Há controvérsias. Não posso sair pelada pela rua, cantando Heavy Metal às três da manhã. Faço parte de uma sociedade em que esse tipo de comportamento é inaceitável, ou pelo menos constrangedor, perturbador da ordem pública.

2. Poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento.


Analisando o mundo em que vivemos, qual de nós pode dizer que age sem coerção ou impedimento? Temos regras na nossa sociedade, e muitas vezes hierarquias cruéis, que precisamos respeitar para continuarmos aspirando nosso ideal de... liberdade.

3. Poder de determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)


Note a síntese da definição... muitas pessoas ficam na primeira parte da frase: "Poder de determinar a si mesmo" ou no parênteses: "liberdade de decisão". E esquecem o meio. Sim, o meio é importante, retomemos - eu sei que estou cansando, mas retomemos: ...."em plena consciência e após reflexão"(...)

Por que reforço esta parte da definição? Porque muitas pessoas querem liberdade, reclamam dos fardos que a vida coloca-lhes nas costas, dizem que querem ser livres! Querem tanto ser livres que rejeitam o que é bom juntamente com o que é mau para elas, ao mesmo tempo, e ficam sem norte.

Será que tudo o que fazem para serem livres, é fruto de consciência plena e reflexão? Uma pessoa que decide "ser livre", ficando em baladas, enchendo o corpo com substâncias danosas e fazendo "o que der na telha" pode ser considerada livre? Uma pessoa que escolhe o caminho do crime é realmente livre?

Muitas pessoas confundem as coisas, acreditam que a liberdade é não precisar de imposições de terceiros, nem amarras morais. Mas há a ressalva, "minha liberdade termina onde começa a do outro" Sou livre para tomar um porre, mas no dia seguinte meu corpo vai reclamar, a cabeça vai latejar e não poderei fazer o que quiser. Não serei livre para poder sair. O final da terceira definição diz: "independentemente das forças interiores de ordem racional".

Sou livre quando me desfaço de amarras interiores, não quando me rebelo sem causa.

Leia a continuação do post: Liberdade, nome feminino Pt. 2

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Existe Racismo em São Paulo


Sim, em São Paulo. Por que não dizer no Brasil? Eu nasci em São Paulo, vivo em São Paulo e por mais que já tenha visitado outros Estados, me sinto mais confortável afirmando algo sobre uma região com a qual possuo um contato maior.

Parece, a princípio, uma constatação óbvia, mas não é. Muitos argumentam que no Brasil o preconceito é baseado no fator socioeconômico e não (ou pouco) no racial. Esse preconceito classista realmente é intenso, mas uma coisa não anula a outra.

Vou pular os aspectos mais escancarados, como a ínfima presença de negros em universidades particulares e públicas ou em cargos de mais prestígio social. Alguns dizem que isso é apenas um reflexo do passado, que não corresponde ao brasileiro atual e que com o tempo os negros conseguirão se integrar melhor. Bobagem. É reflexo do racismo de ontem e de hoje.
Quero falar mesmo é do racismo latente: aquele racismo mascarado de outra coisa qualquer ou então o puro e simples, mas que funciona como fofoca, e, portanto, fica mais difícil de perceber. Okay, não foi a melhor das analogias, mas vai servir. Ninguém faz fofoca de uma pessoa quando a mesma está presente ou quando uma amiga ou familiar desta está próxima. É assim que o racismo se manifesta em muitos casos. Já pude presenciar muitas vezes. Explicarei melhor nos parágrafos seguintes.

Olha eu aí
Detalhe, eu sou negro, embora a maioria das pessoas me considere apenas “moreninho”. “Péralá, Fernando! Sua mãe é branca e tem olho verde! Então você é no máximo pardo!”. Posso ser pardo e negro ao mesmo tempo, se for pra ver por esse lado. Afinal, a mãe do Obama também é branca e ele, suspeito, é até um pouco mais claro que eu. Nem por isso ele deixa de ser negro.
Também é engraçado ressaltar que as mesmas pessoas que dizem que sou apenas “moreninho” fazem piadas com a minha cor sempre que possível. Quando visto uma camiseta preta, sempre tem algum que vai olhar para mim, fingir que não me vê e perguntar pra outro amigo ao lado: “Cadê o Fernando?! Tô ouvindo, mas não tô vendo!”. Essa é uma das piadas mais batidas do gênero, mas, pra ser honesto, eu não me incomodo e posso até dar risada junto.

Vamos então à questão... Racismo latente é o que age com meia dúzia de camadas mascarando ou o que se revela apenas em círculos nos quais se acredita que não poderá surgir qualquer constrangimento. Um bom exemplo do primeiro tipo é o do taxista que se nega a atender um cliente negro.
Imagine acenar para um taxista que está parado no ponto de taxi, esperando entediado por um cliente, e então ver ele te devolver um olhar de desprezo e um sinal negativo com o dedo indicador. Esse taxista poderia enumerar diversas razões não racistas para ter se recusado a atender, no entanto o desprezo em rosto o revelou, mas convenhamos que isso não serve como prova. Ele poderia até ter lançado um sorriso simpático e daria no mesmo.
Outro bom exemplo, agora do segundo tipo (aquele que afirmei funcionar como o sistema da fofoca), é qualquer barbaridade racista lançada no ar como se fosse a coisa mais natural e todos (ou a maioria) no grupo concordam:


Na mesa do bar, depois de duas ou três doses de tequila:
- Gente, vocês não acreditam... Eu fiquei com um preto! – diz a garota, consternada. Todos na mesa automaticamente ficam chocados.
- Com um preto??? – exclamam quase que simultaneamente duas de suas amigas, sentadas em cadeiras ao lado.
Dois dos três garotos presentes também não deixam de demonstrar surpresa com a loucura perpetrada pela amiga insensata.
Questionada sobre a proveniência do garoto, ela responde: - Não! Ele não era da rua, né! Eu conhecia.


Os dois casos acima aconteceram no mesmo dia, numa zona nobre de São Paulo. Todos na mesa do bar eram universitários e de classe média alta, com exceção de um com situação financeira mais modesta. Se houvesse um negro na mesa essa história nunca teria sido contada. Ou melhor, se tivesse um negro que fosse considerado negro e não moreninho. Isso não é algo incomum não. É bastante corriqueiro, basta que haja espaço.

Essas pessoas nunca discriminariam abertamente numa situação em que pudessem ser repreendidas ou constrangidas, também não são mal educadas e provavelmente seriam bastante simpáticas se alguém, negro ou não, lhes pedisse uma informação na rua. E, afinal, uma delas beijou um negro e não fez segredo disso, mas, em sua mente, foi uma aventura e não algo natural.
Então, com base nisso, vou dizer que existe racismo numa cidade com mais de 10 milhões de pessoas? Claro que não! Esses foram apenas dois casos entre inúmeros outros que presenciei no decorrer de toda a minha vida. Podem até dizer que estou fazendo drama ou tempestade em copo d'água, mas a questão não é essa. Não se trata de vitimismo, mas sim de constatação de um fato.

O garoto com o qual a menina do bar “ficou” provavelmente era da mesma classe social que ela, afinal ela não iria se misturar com os “manos pobretas da ZL” (o linguajar da frase entre as aspas obviamente não corresponde ao meu pensamento). Existe sim muito elitismo e preconceito de classe social, mas tentar resumir a situação do Brasil apenas nisso é uma grande ofensa. Se, através da minha mera percepção não posso afirmar categoricamente que o Brasil é um país racista, digo pelo menos que a cidade de São Paulo com certeza o é. 
Recomendo:
 "O Brasil Não É Um País Racista! Nosso Problema É Econômico!"

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Estupro no BBB – Quem se importa?


Monique e Daniel
O título desta postagem faz referência a inúmeras frases idênticas ou semelhantes que proliferam na internet desde o início da polêmica em torno do suposto¹ abuso sexual que a participante do reality show, Monique Amin, teria sofrido. Registrado em vídeo, o modelo Daniel Echaniz aparece fazendo movimentos embaixo do edredon que divide com Monique enquanto a mesma permanece imóvel e aparenta estar desacordada.
O cerne da questão aqui não está na conclusão que esse caso terá, mas sim no posicionamento que inúmeras pessoas adotaram diante dele. Posicionamento machista, inconsequente e, em diversos níveis, preconceituoso. Dentre os incontáveis comentários condenáveis sobre o ocorrido, percebe-se grande coesão em torno de três eixos que podem ser resumidos nas seguintes afirmações: 1°- ela estava bêbada, 2° - ela deu a liberdade, e 3° - Estupro no Big Brother... Quem se importa?

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Notem que através de argumentos que transferem para a vítima toda a responsabilidade dos acontecimentos há uma tentativa de descaracterizar o abuso. A vítima então passa a figurar como a causadora dos males que lhe sucederam, seja por “não se dar ao respeito” ou por ter ficado embriagada. Essa “lógica” obviamente configura machismo uma vez que parte do princípio de que existe um modelo de comportamento que deve nortear cada passo dado pela mulher; como se transgredir alguma norma - ainda mais uma machista e arcaica - fizesse de alguém uma pessoa estuprável². Além disso, também tentam relativizar o abuso ressaltando para o fato de que a vítima estava embriagada, sugerindo que beber muito e ficar vulnerável significa um convite ao estupro, novamente retirando dos ombros do estuprador/abusador a responsabilidade pelo crime cometido.

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Outro fenômeno, aliás, bastante clicherizado e no caso extremamente irracional (não que os anteriores não o sejam) é o que tenta desqualificar o violamento pelo simples fato de ter acontecido no Big Brother. Existe uma tendência pseudo-intelectual que taxa como acéfalo qualquer um que fale sobre esse reality show.  O grande absurdo é que essas pessoas parecem não entender que não se trata do Big Brother, mas sim do estupro. E é por isso que afirmei no início do post que o preconceito se estende por várias camadas, pois além do machismo, falso-moralismo e conservadorismo, também fica perceptível esse elitismo vazio e infantil.

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Respondo então à pergunta que está no título: eu me importo! E se você, pelo contrário, não está nem aí, talvez esteja na hora de rever conceitos e buscar aconselhamento psiquiátrico.

Para concluir quero indicar alguns textos que se aprofundam mais no tema e abordam outras questões ligadas a ele.


·         Bial, O Cínico



·         Mais humilhação

“Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.” (Fonte)

“Mulheres não são estupradas porque são vagabundas ou usaram saia curta; elas são estupradas porque alguém as estuprou.”

1: Digo "suposto" pois até o momento não houve nenhuma investigação e condenar alguém sem julgamento não é algo lá muito democrático. Sim, tem um vídeo que deixa tudo bastante evidente, mas antes de dizer que de fato houve um crime é sempre bom analisar profundamente e considerar todas as hipóteses.

2: Suspeito que essa palavra não exista.

domingo, 27 de novembro de 2011

Guest Post: USP, Greve e a Representatividade das Assembleias

Recentemente escrevi um texto, que pode ser lido “aqui”, sobre a questão das assembleias da USP, a ocupação da reitoria da mesma e outras questões. A Letícia, que é uma amiga da USP, aceitou escrever um texto em réplica ao texto escrito por mim. Ele está logo abaixo.

Assim como o Fernando, sou estudante do primeiro ano de Ciências Sociais na USP. Também sou aluna do 9º semestre de Direito no Mackenzie, e vim aqui a convite do para expor minhas idéias acerca das assembléias, ocupação da reitoria etc. pelo fato de nós discordarmos em inúmeros aspectos em relação ao que vem acontecendo na USP. Muito democrático da parte do , a quem agradeço por abrir este espaço para uma opinião divergente.

Sem mais delongas, gostaria de começar pela representatividade – ou não – das assembléias gerais que vêm ocorrendo semanalmente. Para o as assembléias não representam os anseios de toda a universidade. De fato, em que pese cada vez mais cursos venham aderindo ao movimento, se pensarmos na totalidade dos cursos do campus, não há uma participação maciça nas assembléias. Como exemplo, dos cursos da FEA – que tradicionalmente não aderem a movimentos grevistas -, ou ainda da POLI. Interesses divergentes? Sim. Mas não acredito que estas divergências se encontrem apenas no debate acerca da presença da PM dentro do campus, ela vai muito além.

 Conforme o sociólogo Luis Antônio Groppo*, doutor pela Unicamp,

Luis Antônio Groppo
“(...) parte importante dos estudantes que invadiram reitorias de universidades estaduais de São Paulo e federais país afora, em uma breve leitura dos acontecimentos, pertenciam a cursos das Ciências Humanas, menos prestigiados e em crescente precarização, de jovens oriundos de camadas sociais mais distantes das elites socioeconômicas e que ocuparão provavelmente postos de trabalho menos prestigiosos e menos bem pagos, tais quais a docência no ensino fundamental.”


Ele atribui a escassa participação política dos jovens a fatores socioeconômicos, devidos aos quaisos jovens das classes populares e médias são empurrados antes a pensar no seu próprio presente e futuro próximo, inclusive em questões como sobrevivência”. Groppo aponta ainda que a militância vem sendo substituída pelo voluntariado, considerado atualmente importante requisito profissional para o mercado de trabalho, bem como que a família e a religião, que tendem ao particularismo e ao conservadorismo, são as principais instituições de referência aos jovens, de acordo com pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo.

Diante disto eu questiono: é somente devido à falta de espaço ou receio de alguma hostilização o fato de não haver uma maior participação nas assembléias? Ou será queum desinteresse geral pelo debate político dentro - e fora - da Universidade? Esta última é a conclusão a que tenho chegado.

A greve geral foi deliberada em assembléia geral realizada na FFLCH, em 08 de novembro, e ratificada na assembléia geral realizada em 17 de novembro, na FAU, por ampla maioria (lembrando que eram cerca de 3 mil estudantes). Nãoque se falar em ilegitimidade da mesma. Se não vem sendo respeitada por todos os cursos, atribuo este fato a dois motivos especiais: I) ao desinteresse na participação do debate político por parte dos alunos, ponto abordado acima e II) a ADUSP – Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, não ter deliberado pela greve dos professores, apesar de apoiar as reivindicações.

É claro que o fato dos professores não terem entrado em greve acaba por enfraquecer a decisão tomada na assembléia estudantil, pois os alunos que estão mais interessados em terminar o semestre, entrar de férias, e não querem se envolver no debate político, vão comparecer às aulas, desrespeitando a decisão da assembléia de estudantes. E aqui não há nenhuma crítica, ao menos diretamente, àqueles que permanecem alheios ao debate. Ocorre que quando você se exime de participar, de votar, alguém vai tomar uma decisão por você, e é por isso que vislumbramos contradições (deliberação a favor da greve geral por ampla maioria em assembléia x alunos querendo aula).

Foi o que aconteceu, aliás, na assembléia das Ciências Sociais que deliberou pela retirada das cadeiras das salas de aula. A decisão ganhou por uma diferença, se não me engano, de três votos. Eu fui desfavorável à retirada das cadeiras, e foram muitos os descontentes com essa decisão. Mas entre estes, nem todos estavam na assembléia que aprovou a decisão, legitimamente, por uma apertada maioria.

um questionamento acerca da ausência de espaço para opiniões divergentes dentro das assembléias, o que fundamentaria o desinteresse na participação em assembléias pelos alunos. O Fernando apontou a presença de “tapas, empurrões e até latas com cerveja”, o que me pareceu exagerado, pois venho participando das assembléias e fiquei sabendo de um caso em que se atirou uma lata de cerveja em um aluno que se absteve em uma votação. De qualquer forma, estes atos, obviamente, devem ser repudiados. Entretanto, a meu ver, simples vaias devem ser encaradas assim como aplausos, ou seja, forma de manifestação, que deve ser livre.

Quanto à partidarização do movimento estudantil, isto não elimina o descontentamento dos estudantes em geral em relação ao que vem ocorrendo no campus. Vou me valer mais uma vez das palavras de Groppo:

“(...) há várias manifestações de descontentamento estudantil, como em diversas ocupações de reitorias nos últimos anos. Ainda que não se deva desprezar a denúncia de que houve certa manipulação por grupamentos da ‘extrema esquerdadissidentes da UNE, esta cooptação, tentada e talvez em parte conseguida, não deve ocultar a insatisfação de parte importante dos estudantes que participaram das invasões”.

Podemos ainda lembrar de Rousseau, quando fala acerca da vontade geral versus as facções: “quando uma dessas associações é tão grande que sobrepuja todas as demais (...) nãovontade geral, e a opinião vencedora não passa de uma opinião particular” **. Não acho que exista um grupo tão forte e homogêneo no movimento estudantil da USP que tenha esse poder, de se sobrepor à vontade comum dos estudantes, e percebemos isso nas próprias assembléias, em questões que são aprovadas, por exemplo, por uma maioria apertada. Ou seja, há muita divergência e debates sim nas assembléias! A solução apresentada pelo próprio Rousseau, acerca das facções é: “em havendo sociedades parciais, impõe-se multiplicar-lhes o número a fim de impedir desigualdade entre elas”. Quanto mais debate, mais grupos divergindo, melhor para se chegar ao interesse comum! E é por isso tão importante a participação nas assembléias, pelos contrários ou não às greves, pelos contrários ou não à PM no campus, ao reitor etc.

Certamenteainda muito que se falar, tal como sobre a ilegitimidade da ocupação da reitoria, questão que, para mim, está ultrapassada, e ainda sobre a possibilidade de um plebiscito, mas percebo que me alonguei.

Sim, é um debate interminável, e o importante é isso, que se debata! Por isso agradeço mais uma vez pelo convite , e parabéns pelo seu blog!

Leticia G. Garducci

**  ROUSSEAU, Jean-Jacques, 1712-1778. O contrato social - tradução Antônio de Pádua Danesi – 3ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 1996. p. 38
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